A polêmica campanha de divulgação do HQMix

Imagens publicadas pelos organizadores do Troféu HQMix na página da premiação no Facebook polemizaram durante esta quinta-feira. Leia abaixo tudo o que rolou!

logotipo-27-hqmixAntes de tudo, preciso dizer que me esforço para abordar o assunto da maneira mais neutra possível. A ideia do Em Solo Nacional é de um blog noticioso, jornalístico. Portanto, evito ao máximo opinar ou dar juízo de valor sobre qualquer assunto abordado por aqui. Vez ou outra, elogios a obras ou artistas me escapam, mas, dessa vez, optei pela neutralidade que deveria ser inerente a qualquer veículo jornalístico que trabalhe suas notícias com seriedade. Dito isso, vamos aos fatos.

Na manhã de quinta-feira, por volta das 10h, diversas imagens-convite foram publicadas pela página do Troféu HQMix no Facebook, todas com a frase “venha bombar”, em alusão ao logotipo do prêmio, uma bomba. Reproduzo abaixo alguns prints postados na rede social pela Aninha Costa, da Gibiteria, comic shop paulista (salvei algumas das imagens em melhor resolução, mas perdi em alguma pasta por aqui; atualizo quando encontrar).

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A imagem em destaque, da modelo Renata Molinaro, foi carro-chefe da polêmica.

Durante a tarde e noite de quinta-feira, diversas pessoas do cenário brasileiro de quadrinhos se manifestaram contra a campanha do Troféu HQMix. Confira alguns trechos de depoimentos abaixo:

Aninha Costa, da Gibiteria (íntegra aqui) – “Vocês realmente acham de bom tom, em um ano em que há tanta movimentação feminista dentro do universo dos quadrinhos brasileiros, e com tantas reivindicações sendo feitas pelas mulheres do nosso meio, fazer uma “peça” objetificando o corpo feminino desta forma? Ai, gente. Por favor, parem.”

Fefê Torquato, artista (íntegra aqui) – “Deixem de usar o machismo e o humor antiquado como bóias salva-vidas durante esses tempos de turbulência e mudanças feministas, achando que dessa forma vão conseguir sobreviver. “Os bons tempos” se foram. Aceitem e relaxem meninos. Vai doer menos. Nós viemos pra ficar.”

Luís Felipe Garrocho, artista (íntegras aqui e aqui) – “E mal vem uma crítica ao machismo no nosso universo de HQ e já abrem os portões para as levas de “nossa, nada a ver”, para de mimimi. […] É simples. Se tem mulher falando que é machismo, se tem negro falando que é racismo, se tem homossexual falando que é homofobia, escuta.”

Felipe Nunes, artista (íntegra aqui) – “Depois dessa palhaçada que o HQMIX protagonizou durante a tarde de hoje, e que só foi piorando e tomando proporções arrasadoras durante o dia, chego a ficar envergonhado. Esse ano fui contemplado com um prêmio desse mesmo troféu, que tem 27 anos de tradição e é o maior do ramo no país, mas esse tipo de atitude é vergonhosa. Esse tipo de atitude não tira a importância do prêmio, mas uma falta de posição dos mesmos só prejudica a imagem, provavelmente de maneira irreparável. Espero que você, que acha que machismo não existe, que feminista é idiota, que mulher tem mesmo que lavar a louça, que mulher é um objeto sexual de descarte, que não tem problema fazer piada, saiba que, no mundo dos quadrinhos, 90% das pessoas são como você.”

Janaína Larse, editora-chefe da Editora Mino (íntegra aqui)“Quando o prêmio coloca uma imagem depreciativa de uma mulher, nos fere, e muito. Machuca porque mostra a mulher reduzida a um simples objeto sexual, que está lá para ser usada, consumida, descartada. Joga na nossa cara que, apesar de anos e anos de luta, é essa a imagem que ainda permeia o imaginário de grande parte da população. E isso não é engraçado. Isso não tem graça nenhuma. E se eu não rio, não é por falta de bom humor, é porque eu exijo respeito.”

  • Os responsáveis pela Mino também mudaram o logotipo da editora no Facebook, substituindo o habitual preto por rosa.

Pedro Cobiaco, artista (íntegra aqui) – “Um desserviço total, um ato nocivo, no meio de uma campanha ridícula que não faz nada se não desmerecer um movimento importante que é o feminismo e também a própria cena de quadrinhos brasileira.”

Algumas pessoas que se manifestaram publicamente contra a atitude dos organizadores do troféu relataram ter recebido ligações muito mal-educadas e até desrespeitosas, pedindo que seus depoimentos fossem tirados do ar e, caso isso não acontecesse, retaliações poderiam acontecer.

Resposta

No fim da tarde, leitores, artistas, jornalistas e alguns grupos e editores de ambos os gêneros editaram uma carta aberta, que você pode conferir na íntegra na imagem abaixo – é só clicar e ampliar.

carta-aberta-polemica-hqmixA carta foi assinada por Ana Luiza, Koehler, Ana Recalde, Anna Mancini, Beatriz Blanco, Beatriz Lopes, Beatriz Perini, Carolina Vellei, Cris Camargo, Cris Peter, Daniel Franco de Oliveira, Daniela Karasawa, Denis Mello, Didi Helene, Ellie Irineu, Emilio Baraçal, Estela Rosa, Fabiano Azevedo Barroso, Fefê Torquato, Felipe Portugal, Fernanda Gaspar, Gabriela Borges, Gabriela Leite, Germana Viana, Iris Lopes, Jessica Daminelli, João Ferreira, Jordana Andrade, Ju-Sama, Kari Esteves, Karina Goto, Lauro de Luna Larsen, Lovelove6, Lila Cruz, Lívia Stevaux, Lucas Ed, Luciana Zamprogne, Luís Felipe Garrocho, Luiza Meira, Mariana Luiza Krindges, Montserrat Montse,  Murilo Souza, Natalia Matos, Natalia Schiavon, Nina Grando, Pacha Urbano, Petra Leão, Raquel Vitorelo, Rafael Corrêa, Rafael Rodrigues, Ramon Cavalcante, Rebecca Erickson, Renata Gil, Renata Nolasco, Renato Mendes, Roberto Quirino, Sabrina Rolim, Silva João, Sirlanney, Sonia Alvarenga, Tais Koshino, Thaïs Gualberto, Thaís Mallon, Ursula Dorada, Aninha Costa – Gibiteria, Carolina Ito – Salsicha em Conserva, Collant sem Decote, Cuzcuz Literário, Editora Mino, Estídio Black Ink, Estúdio Complementares, Feira Dente, Filho do Freud, FIQ – Festival Internacional de Quadrinhos, Girl Gang – Coletivo, Lady´s Comics, Manifesto Irradiativo, Mina de HQ, Minas Nerds, Monotipia, Mulheres nos Quadrinhos, Nada Errado, Ovelha Mag, Renegados Cast, Revista Farpa, Rio.on.comics, Roberta AR, Studio Seasons, Supernova Produções, Tayla Nicoletti – Debaixo do Farol Quadrinhos e Zine XXX.

Durante a tarde, entrei em contato com um dos organizadores do evento, que me informou que a presidência do troféu publicaria uma nota sobre o acontecido ainda na quinta-feira. Em nome da premiação, José Alberto Lovetro, um dos organizadores do evento, publicou a referida nota em seu Facebook e na página do HQMix (confira aqui na íntegra).

Grande parte dos insatisfeitos com a campanha também ficaram insatisfeitos com a nota publicada pelos organizadores do evento, porque, em nenhum trecho do texto, os mesmos pedem desculpas ou se retratam, literalmente, pelo acontecido.

“A democracia vive da crítica. Mas do modo que vieram e sem saber o nosso lado, que é a primeira regra da informação correta, me fez ficar muito triste. Será que somos tão ruins assim? Logo retiramos do blog essa campanha. Creio já ser uma ação de quem não quer causar por causar ou de nariz empinado. Mesmo assim, estamos sendo bombardeados como se não houvesse um passado. Como se bastasse qualquer fato para que tudo o que foi feito por uma vida fosse esquecido. Alguém que ao menos tivesse o bom senso de lembrar que a gente não tem essa característica machista e que pode ter sido um engano. Sempre estimulamos em nossas exposições e eventos a mulher”, relatou Lovetro, na nota. “Várias pessoas que esperam essa posição de um de nós ( pois essa posição aqui é pessoal e de desabafo) provavelmente vão preferir não falar de Nair de Teffé, mas de um problema que eu imaginava resolvido. Uma postagem que já foi retirada. Não sei se me entendem”, escreveu mais à frente. A nota se encerra com as seguintes palavras: “Se houve quem se sentiu desrespeitado(a), posso garantir que não foi nossa intenção.”

[ATUALIZAÇÃO EM 06.09, ÀS 02H10] A Aninha Costa, uma das primeiras a se manifestar publicamente sobre o caso, comentou a nota que a organização do HQMix publicou na página do evento no Facebook e relatou a retaliação que sofreu pelo post que fez na quinta-feira, condenando a atitude dos responsáveis pelo troféu. Confira o que ela postou no perfil dela no Facebook há alguns minutos:

“Pra quem acha que o “negócio do HQMIX” tomou uma proporção maior do que devia, é porque não recebeu um telefonema histérico da um membro da organização, em tom de ameaça e cheio de carteirada, tentando te intimidar e deixando bem clara a falta de intenção de se retratar.

Eu recebi esse telefonema.
Eu recebi esse telefonema pouco depois que fiz minha postagem.
Eu recebi esse telefonema e não foi nem um pouco agradável passar 20 minutos ouvindo uma pessoa gritando comigo e não ouvindo nada do que eu tinha pra dizer.

Então, não, não vou aceitar a pseudo-retratação, tardia e insuficiente, da organização. E espero que vocês também não aceitem.”

[ATUALIZAÇÃO EM 07.09, ÀS 11H30] A comissão organizadora do HQMix publicou na página do troféu no Facebook um pedido oficial de desculpas. Confira abaixo:

“Erramos. Gostaríamos de deixar bem claro que lamentamos o ocorrido com nossa divulgação, não tivemos a intenção e pedimos desculpas a todas as pessoas que se sentiram ofendidas. E também queremos reforçar o convite para a cerimônia de entrega do Troféu, no sábado, dia 12 de setembro, às 17h, onde estaremos para prestigiar os ganhadores deste ano.”

Contexto

A campanha do HQMix veio em um momento de forte discussão da presença feminina no mundo dos quadrinhos brasileiros. A quantidade de artistas mulheres escrevendo, desenhando e publicando seus trabalhos em solo nacional é grande.

Bianca Pinheiro, Fernanda Nia e Fefê Torquato tiveram seus trabalhos publicados pela Editora Nemo; a colorista Cris Peter é elogiada nacional e internacionalmente, Lu Cafaggi fez, com o irmão Vitor Cafaggi, duas das mais bem sucedidas HQs brasileiras dos últimos tempos, ‘Turma da Mônica – Laços’ e a sequência, ‘Turma da Mônica – Lições’; Janaína Larsen capitaneia uma das mais importantes editoras brasileiras dos últimos tempos. Esses foram apenas alguns mínimos recortes que selecionei para demonstrar a presença das mulheres no cenário nacional da nona arte; há muito, muito mais. Basta uma visita a uma comic shop ou evento para se certificar disso.

Na 21ª Fest Comix, o coletivo Minas Nerds realizou um painel que teve atividades, discussões e debates, em quase todos os horários dos três dias do evento.

Em boa parte dos eventos e bate-papos com editores e artistas, o tema da representatividade das mulheres nos quadrinhos é levantado por homens e mulheres, como já testemunhei muitas vezes.

O FIQ deste ano [Festival Internacional dos Quadrinhos, que acontece em novembro] tem como slogan a frase “firme na diversidade”. Confira alguns dos princípios citados no texto de descrição do evento, publicado em seu site oficial:

cartaz-fiq2015-lu-cafaggi

Cartaz do FIQ 2015, feito pela Lu Cafaggi

“Um festival que procura abraçar a maior diversidade possível de narrativas não poderia renunciar ao esforço necessário para que a oportunidade de contar e ouvir essas histórias seja um direito exercido por todos, e não um privilégio de alguns.

Por isso, entendemos que o FIQ não pode ficar em terreno neutro no que diz respeito às questões de representatividade e diversidade. Não vivemos em um mundo de oportunidades iguais para todos. Machismo, homofobia, transfobia, racismo e xenofobia – assim como toda forma de violência e silenciamento – nos roubam a chance de conhecer pessoas e histórias maravilhosas.”

Continuarei acompanhando a história e trazendo possíveis novidades.

O HQMix acontece em 12 de setembro, no SESC Pompeia, em São Paulo. Clique aqui para conhecer os indicados e os vencedores.

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Um comentário sobre “A polêmica campanha de divulgação do HQMix

  1. Pingback: HQMIX: Os 30 anos do “oscar” dos quadrinhos nacionais

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