19 perguntas para Pedro Cobiaco

Pedro Cobiaco é um dos muitos novos talentos jovens dos quadrinhos brasileiros. Aos 19 anos, o autor já tem uma carreira considerável: desenhou tiras para a Folha de S. Paulo entre 2010 e 2015; no FIQ [Festival Internacional de Quadrinhos] de 2011, publicou sua primeira HQ, ‘Bolhas‘; no FIQ de 2013, lançou ‘Harmatã‘, que ganhou uma edição revisada e atualizada pela Editora Mino, em 2015; além disso, participou e editou as revistas do coletivo LOKI.

pedro-cobiaco (1)Neste ano, o autor lança, também pela Editora Mino, a HQ ‘Aventuras na Ilha do Tesouro‘, que está sendo disponibilizada gratuitamente na internet, capítulo a capítulo. O ano também é especial para Pedro por outro motivo: Seu pai, o quadrinista Fabio Cobiaco, ilustrador de ‘V.I.S.H.N.U., obra que levou um Prêmio Jabuti em 2013, também lança uma HQ pela Editora Mino, ‘Mayo‘ (que, dizem as boas línguas, também está imperdível).

Enfim, bati um papo com o Pedro sobre ‘Aventuras na Ilha do Tesouro’, ‘Harmatã’, tecnologia, amor e muito mais. Confira a entrevista!

Pedro, de quem foi a ideia de publicar ‘Aventuras na Ilha do Tesouro’ na internet, antes da versão impressa do material? E por que disponibilizar digitalmente a história na íntegra e de graça?

A ideia foi minha e fiquei muito surpreso quando o Lauro e a Janaina [de Luna Larsen, editores da Mino] aceitaram. Eu já pensava em publicar uma HQ na internet há algum tempo. Começou quando eu li ‘Ant Colony’, do Michael DeForge, que é um autor que me influenciou bastante no meu novo trabalho. Essa história dele é grande pra caralho, muito boa e eu achei muito importante que ela estivesse por aqui, online, sabe?

Esse trabalho dele está em inglês, que é uma língua universal. ‘Aventuras na Ilha do Tesouro’, não, mas me interessava a ideia de que todo mundo pudesse ler, mesmo quem não comprou o livro. Mas também tem o outro lado, que é uma estratégia. Se fosse simplesmente por tê-lo na internet, eu poderia finalizar tudo e só depois publicar. Resolvi publicar em capítulos, conforme eu ia fazendo, porque pensamos que talvez isso ajudasse a formar um público pro impresso, bem antes de sair o livro. Esse público seria formado aos poucos, com os leitores criando apreço pela obra a ponto de ficarem ansiosos pelo material impresso.

E você já conseguiu sentir se esse público está sendo criado?

Já, sim. Na verdade, é uma coisa que eu já esperava porque tem bastante gente mais preciosista, que prefere esperar pra ler a versão impressa. Eu acho isso maneiro! E o cara também está comprando meu livro, né? (risos). Outra coisa que percebi é que as pessoas estão tratando a história como uma série. Vejo gente discutindo se esse capítulo foi melhor que aquele outro e isso é engraçado, porque eu pensei na história como um livro inteiro, não como partes fragmentadas. Não penso na HQ como um ‘Breaking Bad’, sabe? Tipo, não tenho que colocar alguma coisa em tal episódio pra ligar com o próximo. Essa foi uma consequência engraçada de publicar de maneira seriada. O capítulo quatro [recém publicado quando conversamos] foi o que rendeu mais comentários e eu fiquei bastante feliz.

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Quando você teve a a ideia de criar uma webcomic, já pensava, especificamente, em ‘Aventuras na Ilha do Tesouro’ ou o conceito foi sendo construído com o tempo?

O meu plano de fazer uma webcomic seriada envolvia, diretamente, uma história de fantasia e aventura. É um tipo de história que gosto bastante e que eu sinto que as pessoas teriam mais interesse de acompanhar. Quando eu comecei com essas ideias, minhas noções do que eu poderia fazer com quadrinhos eram bem mais básicas. Eu queria, na verdade, fazer uma coisa de aventura, fantasiosa, divertida e leve, que tivesse diálogos interessantes e atingisse pontos profundos, mas que, em geral, fosse meio, eu não sei… Na época, eu estava lendo bastante ‘Scott Pilgrim’ e eu queria, realmente, fazer algo que levasse a um resultado mais leve. Antes, minha vontade era fazer essa coisa mais grandiosa, mais série, pra ser acompanhada, mas eu fui mudando completamente minhas ideias e ideais. Eu também não sei se eu conseguiria manter uma série que não tivesse previsão de acabar. É uma ideia mais que ousada… Me deixa doente só de pensar! (risos)

A própria ideia de ‘Aventuras na Ilha do Tesouro’ mudou bastante. Antes, eu pensava em fazer uma sériezinha menos complexada (risos). Seria uma parada mais de aventura e eu ficava pensando: “Vai todo mundo acompanhar esse quadrinho e eu vou ficar milionário!” (risos). Mas tudo mudou completamente durante o processo (risos).

Então, você não pensa em ‘Aventuras na Ilha do Tesouro’ como uma série a ser continuada?

Quando eu comecei a pensar na história, eu sabia que era o início de uma coisa. Assim como ‘A Balada do Mar Salgado’ é a primeira aventura do Corto Maltese, essa minha HQ é a primeira aventura do Capitão. Eu quero que tenha outras depois, que essa seja uma aventura inicial, encerrada nela mesma, mas tenho muita vontade de continuar. Conforme outros elementos entraram na obra, como o personagem Paulo, o Autor, eu comecei a me questionar sobre a validade de continuar essa história. Eu não sei. Sei que, quando eu acabar essa HQ, não vou fazer uma continuação em seguida nem fodendo! (risos). Eu não aguento mais! (risos). Mas eu não tiro uma continuação dos planos… A história que eu pensei, inicialmente, envolvia tantas coisas e não envolvia tantas outras, que tenho muitos elementos pra uma possível continuação.

Um dos elementos que chamam mais atenção nessa sua nova história é a cor. Você definiu uma paleta, teve algum norte, ou vai sempre na emoção?

Desde o começo, eu tinha na cabeça que as cores seriam muito importantes na história. Quando comecei o quadrinho, eu queria criar uma coisa fantástica. A parte estética de ‘Aventuras na Ilha do Tesouro’ é muito inspirada em alguns games dos anos 90 e outros recentes, que têm puxado alguns elementos dos antigos e têm somado uma profundidade nova, como ‘Fez’ e como ‘Sword and Sorcery’.

Uma HQ é feita de quadros fixos que não podem ser modificados pelo leitor do jeito que dá pra se modificar no videogame, explorando cenários, mas eu queria que cada quadro fosse um lugar em que a pessoa pudesse ficar um tempo, perder um tempo olhando aquela cena, aquele espaço, aquela paisagem, imaginando aquele lugar. As cores são parte essencial disso. Elas têm influências de alguns quadrinistas que trabalham muito bem com criação de universos, como o Moebius, que é, talvez, uma referência pros degrades que se tornaram comuns na composição dos quadros da minha história.

Como eu disse, eu tinha a noção da importância das cores, mas elas surgem completamente conforme vou montando as cenas. Eu sou muito ruim com paleta, não sei desenvolver, então acabei fazendo tudo na marra. Desde o primeiro capítulo, que foi o que mais consumiu meu tempo e paciência e que mais me deu trabalho para encontrar as cores certas pra cada quadro, fui entendendo aonde eu queria chegar com a estética. Mesmo sendo uma coisa fantasiosa, acho que minha principal influência é o Chris Ware, que trabalha umas cores naturalistas lindas e, por mais triste e melancólica que seja a história, ele consegue fazer você achar aquilo bonito. Ele também tem alguns truques que me influenciaram bastante, como trabalhar a cor chapada e a sombra chapada por cima…

pedro-cobiaco (6)O processo de colorir mudou ao longo da produção ou ainda é o mesmo?

Agora, conforme vou desenhando, já consigo imaginar as cores. No começo, era bastante difícil. As cores me tomaram bastante tempo no desenvolvimento dessa história, mas agora já estou familiarizado com alguns processos.

Você tem falado bastante da surra que está tomando em cada capítulo, cada página e cada quadro, principalmente na hora de colorir. O que você acha que vai levar desse processo de tentativa e erro pros seus próximos trabalhos e pra sua carreira?

Por ser a primeira vez que eu trabalho uma coisa mais longa, é muito engraçado ver o que vai surgindo no meio deste processo. Naturalmente, tudo é mais demorado. Por mais que eu tenha me atrasado todo e agora esteja produzindo em ritmo alucinante, parece que tive mais tempo com a história. Tendo mais tempo com a história, parece que consigo contemplar e confrontar o que é uma história em quadrinhos. Isso é brilhante, porque consigo perceber meus pontos fortes e as brechas que ainda posso explorar como autor, além de ganhar uma compreensão muito grande de quais são minhas limitações, minhas repetições e as coisas que me desapontam no meu trabalho.

No fim, parece o tempo inteiro um tiro no escuro, por mais consciência que eu tenha da história. Mas é tanto tiro no escuro, que, mesmo não enxergando o alvo, você aprende a atirar (risos). É tanto tempo trabalhando uma história, que você começa a pegar nuances que não pega trabalhando quadrinhos mais curtos. E, sabe, é também uma coisa de provação. Você também ergue uma bandeira e grita: “Caralho, eu consegui fazer esse tanto de páginas!”. A gente sempre duvida da gente, mas, talvez, num quadrinho futuro, eu não duvide tanto de mim. Eu estou vendo a pilha de originais ficando imensa e dá uma sensação muito boa. No meio do processo, você fica tão entorpecido e absorto, que nem dá pra contemplar muito, mas tem uns pequenos flashes em que eu revejo tudo o que eu fiz e tento absorver algo.

No começo, você fica se questionando: “Será que vai ser uma obra-prima?”, mas, no final, é mais sobre ter uma compreensão do que você conseguiu experimentar e desdobrar dentro da sua própria capacidade pra ter essa base pro próximo e, no próximo, desdobrar novas coisas. Eu abomino um pouco a ideia de que o autor trabalha pro leitor, porque, no fundo, é um processo egoísta. Enquanto estou fazendo esse quadrinho, não penso cem por cento no leitor; penso mais no que eu quero alcançar. Quando sinto que falhei em qualidade e fiquei aquém do que eu poderia, sinto que desrespeitei a obra. Eu fico: “Caralho, desapontei a Ilha do Tesouro” e imagino o Capitão derramando uma lágrima (risos).

‘Harmatã’, sua HQ anterior, parece ter uma carga mais forte de conteúdo autobiográfico. Você consegue medir o quanto de você tem em ‘Aventuras na Ilha do Tesouro’?

Sabe uma coisa que fui percebendo com o tempo? Independe o tanto de você que realmente foi colocado no trabalho, no sentido autobiográfico, mesmo. Se você fizer bem feito, fica crível, e as pessoas começam a se perguntar se aquilo não e autobiográfico. Por exemplo:  Eu nunca tive aquele diálogo de ‘Harmatã’, mas é engraçado como muita gente vem me perguntar se eu tive. Tem coisas ali que eu vivi, realmente, outras que até existiram, mas que mudei completamente, e outras inventadas. Eu acho que se você bota um tanto de sentimento na história, independentemente do que é fato, ela se torna crível.

Não me interessa muito estimar quão biográfica é ‘Aventuras na Ilha do Tesouro’, mas tem bastante de mim, ali. Apesar dos monólogos do Autor serem repletos de hemorragia verbal bem crua de sentimentos e ideias, acho que tem muito mais de mim no Capitão. Trabalhar quem eu sou e coisas que eu vivi num personagem de história fantasiosa é quase como uma mistificação da minha vida, não uma desmistificação, como acontece em histórias mais pé no chão e, literalmente, autobiográficas.

Pra mim, que estou colocando tudo no papel pra poder entender o que acho do mundo, a sensação é que quando eu mistifico alguma coisa aumento muito mais a minha compreensão. Uma coisa tão crua como aqueles monólogos do Autor… Eu não sei… Por mais que, de certo modo, ele seja uma vitrine dos fatos e te possibilite olhar de diversos ângulos, é mais como se eu estivesse engaiolando ideias pra poder olhar pra elas com certa distância. Quando você mistifica um acontecimento da sua vida em ficção, parece que você está fazendo jus a esse acontecimento, porque ele é sempre é maior do que a gente pode compreender ou categorizar. De certo modo, então, estou mais no Capitão que no Autor, apesar de ter traços autobiográficos nos dois.

pedro-cobiacoOs personagens de ‘Aventuras na Ilha do Tesouro’ já surgiram com a ideia de fazer uma webcomic de fantasia ou apareceram depois?

Eu já tinha a ideia de trabalhar alguma coisa fantasiosa há muito tempo e quando esses personagens apareceram, eu vi que a chance estava ali. Gosto muito de obras que tratem de universos fantasiosos, de coisas fantásticas, de mundos paralelos e de criaturas mágicas. Eu sempre tive uma paixão muito grande por isso. Nem parece, né? Se você olha tudo o que eu fiz antes dessa história… (risos). Acho que agora é a minha chance de vomitar todas as paradas que eu gosto profundamente.

Eu queria trabalhar uma história fantástica, talvez, não só pelo deslumbre de escrever e desenhar sobre coisas mágicas que não existem, mas, também, porque dá até um pouco de preguiça de falar de coisas que existem. Parece que a fantasia dá uma chance de desapego única, porque desestrutura, por completo, as soluções formais. Se traduzirmos toda a base do que acontece em uma história de fantasia pra um cenário realista, tudo permanece crível. Dá pra trocar os personagens de uma guerra de ‘Senhor dos Anéis’ por outros reais e, ainda assim, vai fazer sentido. Apesar da base que continua sendo humana, a fantasia oferece possibilidades do caralho, sabe? Ninguém precisa andar, eu posso fazer um rinoceronte colorido, tá ligado? (risos) Qualquer coisa incrível se torna crível dentro do universo que criei. No desenvolvimento de uma história fantástica, você começa a questionar o que precisa ser crível e o que precisa ser explicado.

No começo, ‘Aventuras na Ilha do Tesouro’ seria bem mais explicada. Tem várias paradas no quadrinho que são completamente nonsense, sem explicação nenhuma. Tipo, um bando de moleques usando tênis All Star, morando numa ilha, extraindo tudo da natureza… (risos). Essas coisas tinham explicações no roteiro original, mas chega um ponto em que acho que fica mais interessante não explicar. O que não precisa ser explicado não vai ser explicado.

Acho que a fantasia reforça profundamente uma ideia que tem a ver com os personagens que eu trabalho nesse livro, por serem todos adolescentes e impulsivos: o que importa é, pura e simplesmente, o que está acontecendo agora. O Capitão é um personagem impulsivo, que está sempre confuso e só se importa com o hoje, porque ele nunca olha pra nenhum lado.

E depois de tanto tempo de produção exclusiva pra internet, como vai ser ter o livro impresso em mãos?

Eu sempre fico pensando no desejo e na satisfação de ver as histórias no papel. Por muito tempo, eu achava que era um preciosismo meu e foda-se. Eu poderia ter esse preciosismo. Mas acho que subestimar a existência de uma coisa física é subestimar um acontecimento, o propósito do livro, como se tudo que ele precisasse fosse só a ideia, sendo que o canal é tão importante quanto. O impresso reforça a existência de tudo que está ali e reforça ainda mais a existência de tudo aquilo como uma brecha pra outro universo, porque você entra em outro universo quando abre um livro.

Não é que não confio na internet como forma de publicação, até porque estou publicando tudo digitalmente, mas o ambiente virtual é muito mais distrativo. Não sei… Na internet, está tudo acontecendo ao mesmo tempo e aquilo te sugou por um tempinho, enquanto outro milhar de coisas está acontecendo. Um livro meio que te isola do mundo.

pedro-cobiaco (6)Então, você concorda que comprar um livro é comprar a história que vem nele, mas também a experiência de tê-lo nas mãos?

Sim, sim! Porque, se não fosse assim, a gente estava vendendo um monte de papel dentro de uma sacola… Só o miolo, sabe? (risos) Acredito bastante nisso. O Chris Ware fala muito bem disso numa entrevista. Ele desenvolve a ideia do livro como criatura, tendo vida própria e até se assemelhando a uma forma viva real em anatomia, como se a lombada fosse uma espinha vertebral, uma coluna… É uma coisa bem bonita de se pensar (risos).

Quando você está publicando um livro, a internet é essencial, mas ela meio que pulveriza as coisas. Numa guerra, ela é como um avião que sai jogando gás venenoso e pode matar muita gente ou não. O livro impresso é como uma pistola, porque pode até acertar pouca gente, mas quem levar o tiro vai ser impactado. As duas formas de leitura e publicação são muito potentes, mas ainda gosto da maneira íntima e à queima roupa que o livro te pega.

Agora, vamos longe (risos)… O amor é uma constante em seus trabalhos, independentemente de como ele aparece. Em ‘Harmatã’, acho que você fez uma representação bem fiel do amor da nossa geração, que é esse negócio enrolado, do falo-não-falo, do ligo-não-ligo, de tudo parecer ou ser um bicho de sete cabeças, do deixa quieto, sabe? O que é o amor pra essa nossa geração, Pedro?

Amor é uma coisa engraçada. Não sei dizer se ele é um organismo se adaptando ou se ele é uma forma de resistência. Eu cresci nessa época, nessa geração, então meio que não tenho outra experiência pra fazer um contraste, dizer que “antes era assim”. Pra mim, o amor é quase uma âncora, que serve para permanecermos… Pensando bem, ultimamente eu já não sei se acredito nesse lance de raízes… Ando questionando o que a gente entende por raízes, por termos um apreço muito grande por certas buscas espirituais que tratam, justamente, disso. O amor é um jeito de se foder que permanece vivo eternamente (risos).

Uma das principais coisas que a internet mudou é, talvez, a dificuldade de se esquecer das coisas. É preciso um esforço enorme para se esquecer. Não falo de esquecer pra sempre!, mas de passar uns minutos do dia pensando em outra coisa. Vamos supor que um cara conheça uma garota num lugar que nenhum dos dois mora. Eles só se encontraram lá. Aí, cada um volta pra casa e, claro, é impossível que isso exista de maneira prática à distância. Mas o que eles vão fazer? A internet e comunicação compelem os dois a não se esquecerem, a continuarem se falando. Isso é ruim? Não, não. Olha que curioso: É uma chance única de comunicação! Mas é claro que também gera dificuldades. Hoje, com a internet, existe a presença fantasmagórica da pessoa quase que 24 horas por dia na sua vida. Aquele urubu no seu ombro te sussurrando pra dar uma olhadinha, ver se a pessoa não falou nada mais no chat. E se não falou, lá vem drama. Isso é mais culpa das pessoas, que são neuróticas, do que internet, mas, porra, a internet é uma chave de ouro pra obsessão, né? Agora, você pode ser um obcecado profissional! (risos) Você vai poder ver tudo o que a pessoa escolher mostrar e falar e você pode falar com essa pessoa o dia inteiro… Eu também não acho que isso é de todo ruim nem é uma coisa pra se metralhar. Eu acho curioso, acho que é um novo desdobramento dos relacionamentos humanos.

Não tem por que romantizar a ideia de não saber nada sobre alguém, assim como não é inteligente achar que você sabe quem alguém é só porque conhece o perfil da pessoa no Facebook. Esse “Ah, olha o que ele postou! Esse cara é de direita, é não-sei-o-quê! Nem quero saber dele, então” pode ser um jeito de poupar paciência, mas também pode significar experiências profundas perdidas, a longo prazo. Acho que a tecnologia pode ser usada pra coisas muito ruins e nocivas, mas tem dois lados, porque acho que pode fomentar experiências curiosas e positivas.

pedro-cobiaco (5)Mas rola muita hipocrisia também, eu acho. Muita gente que só vê o lado negativo dessa situação também conheceu ou mantém contato com amigos via internet, né?

Sim! Vários dos meus melhores amigos, por exemplo, conheci pela internet. Alguns moram perto de mim e vejo com frequência, mas conheci online e converso pela internet. Enfim, voltando pro amor: acho que a modernidade entrou como uma bomba na aleatoriedade. Talvez, tenha redefinido o que é a aleatoriedade num relacionamento. Eu acredito na aleatoriedade como uma presença firme, não importa o que aconteça, em qualquer relacionamento humano.

O que eu questiono é: O que vira a aleatoriedade quando você pode investigar tanto sobre a vida de uma pessoa? Nem importa se é melhor ou pior do que antes, porque é um fato do agora, atual. Eu disse que o amor é uma forma de resistência, porque, independentemente dos detalhes e de quantas mil maneiras existem para se comunicar, ele ainda permanece como um grande lance aleatório. Nunca vai sumir o amor à primeira vista, esse lance de ver alguém no mercado, conhecer essa pessoa e nascer daí uma história de amor. Eu acho isso muito engraçado e divertido. Hoje, é uma coisa até irônica. Isso expõe uma verdade que, muitas vezes, é mal entendida. Parece que a lição que fica é que o amor é essa coisa arcaica e ultrapassada que continua, mesmo dentro de condições modernas. Mas não, não acho isso. Acho que arcaicas são nossas maneiras precárias, romantizadas e travadas de lidar com amor e com as pessoas. Acho que o amor expõe essa precariedade com cada vez mais força, hoje em dia.

Dá pra apontar uma principal característica positiva que tecnologia incorporou no amor e nos relacionamentos? É a facilidade de comunicação, mesmo?

Pode ser… Mas pensei aqui: A maior influência do tempo moderno e da tecnologia no amor, talvez, seja a da informação de fácil acesso e como possibilidade real. Porra, isso é muito bonito. Nunca foi tão difícil pra gente filha da puta esconder informação de quem eles segregam na sociedade. De certa forma, é, na verdade, impossível. Ninguém precisa mais se achar um monstro, uma minoria. Esse sentimento se forma quando existe uma fuga do padrão de normalidade num círculo pequeno – uma cidade, uma escola, a própria casa – e você se acha um monstro, uma aberração. Mas isso perde sentido quando você pode entrar na internet, pesquisar, descobrir que existem milhões e milhões de pessoas iguais a você, descobrir que tudo isso é debatido e pesquisado. É uma coisa de amor próprio, mesmo. Informação é um passo firme na direção de um amor próprio maior  e, logo, mais amor com os outros… Pelo menos, é o que se espera, né?

Com tanta informação, você não está mais à mercê de opiniões opressoras do mundo minúsculo ao seu redor. Você pode ler sobre tudo, discutir, opinar, brigar, ter conversas bonitas… Só o fato de alguma coisa deixar de ser tabu, já é um alívio tão grande, não é? Aconteceu aqui no Brasil, recentemente, o 1º Seminário Queer [no Sesc Vila Mariana, em São Paulo, entre 9 e 10 de setembro], com presença de convidados importantíssimos. Este é um evento que só pôde existir por causa do tempo em que vivemos e ele ainda está todinho de graça na internet. Olha só, quão do caralho é isso? Isso é uma fuga da gaiola e, quando você sai, tem o mundo todo pra explorar e vai se perder muito. Mas não há dúvidas de que, em qualquer situação que a gente se perde dentro dessa liberdade, tem a chance de gerar perguntas mais prolíficas do que quando a gente se perde dentro da gente, totalmente preso e isolado do mundo.

Bem, gente com preguiça de pensar sempre vai ter, então, obviamente, nem tudo é um mar de rosas. Sempre vamos ter essa alquimia, em que pessoas conseguem transformar o ouro que é a informação em ainda mais segregação e silêncio. Bom, ainda assim acho um momento bastante positivo.

Já que ‘Harmatã’ fala desse amor tão atual, podemos nos arriscar a dizer que a HQ é, talvez, uma autobiografia de uma geração?

Acho que sim! É engraçado, também, porque acho que a Lua cita um smartphone na carta dela, mas acho que é só isso que existe de tecnologia na história. Na real, ‘Harmatã’ poderia se passar em qualquer época. Como eu disse, acho que fazer uma coisa autobiográfica é engaiolar um sentimento, mas isso também é uma arte. Quando você trata de uma situação tão pessoal e cheia de detalhes, acho que os leitores entendem que o que importa não são os detalhes, mas a sensação geral da coisa. Acho que foi por isso que o Bob Dylon leu ‘On the road’ e fugiu de casa. Não foi porque ele se identificou com os fatos, mas com o contexto.

Quando você consegue expressar fatos de maneira inteligente, eles criam sentimentos, uma sensação geral. O cara sabe que passou por aquilo que está retratado ali, mas não da mesma maneira, sabe? Talvez, você não estava deitado na sua cama, melancólico, lendo a carta da sua ex-namorada, mas você pode ter já ter se sentido como o protagonista estava se sentindo naquele momento. Tem uma cena de ‘Big Man’ [quadrinho do David Mazzucchelli] que o pai de uma das crianças que estavam brincando com o gigante fecha o celeiro onde o gigante está guardado, caminha um pouco e para no meio de um campo, sozinho, e fica olhando pra cima. É uma cena muda. Todo mundo já fez esse gesto de, com medo, preocupado, assustado, em dúvida, seja o que for, olhar pro céu, pensando: “Caralho, que está acontecendo com a minha vida?”.

Quadrinho é uma mídia estática, então acho que funciona bem, quando o objetivo é reter alguma coisa. Você olha a figura o quanto quiser; não corta, não passa, a não ser que você vire a página. Isso cria uma sensação ainda mais forte de identificação. Acho que a identificação das pessoas com ‘Harmatã’ pode vir disso.

pedro-cobiaco (1)Tanto em ‘Harmatã’ quanto em ‘Aventuras na Ilha do Tesouro’, os protagonistas são adolescentes. Por que você tem essa predileção por temas adolescentes?

Todos os meus amigos me enchem o saco com isso (risos). Acho que o período da adolescência emerge de maneira furiosa, confusa, com um zilhão de questionamentos, e me pergunto se isso coincidiu com a fase da vida em que comecei a fazer quadrinhos, porque eu era adolescente, também. Talvez, daqui a vinte anos, esse tema nem passe pela minha cabeça. Às vezes, também, eu me questiono se isso tudo vai além e se eu escrevo sobre a adolescência porque falar sobre isso faz parte de mim. Esse tema me dá possibilidades de extravasar algumas das ideias principais do meu trabalho, que são intensidade, coisas à flor da pele, que gerem muitas dúvidas e muita confusão. Mas acho que não é só adolescente que é confuso, porque, na real, a gente é confuso pra sempre (risos).

Eu não sei, cara… No capítulo 5 de ‘Aventuras na Ilha do Tesouro’, o Capitão está bem mais velho. Eu comecei a trabalhar esse personagem e senti muitas inseguranças. Pensei: “Será que eu trabalho personagens adolescentes, simplesmente, porque é o que tenho confiança de retratar, porque é o que eu vivo?”. Na verdade, acho que não vem disso. Mesmo esses tópicos constantes no meu trabalho podem ser retratados em qualquer período da vida. Tem alguma coisa na adolescência… Eu não sei. É um jeito meio carismático de ser uma pessoa tremendamente confusa. Acho que, mais do que adolescência, eu gosto de tratar de confusão e encontrei na adolescência uma porta pra isso.

Essa ideia de um swing da decadência me anima. Gosto de personagens que encontram o caminho pra serem carismáticos, justamente, por serem de uma bagunça do caralho, sem serem impotentes. Parece que essa bagunça mental toda não é um bloqueio pra atitude nenhuma, mas um impulso, a lenha pro fogo. Tipo, você está tão confuso que vai acabar tomando as atitudes mais impulsivas do mundo.

Tem alguns autores que admiro muito e que permaneceram tratando da adolescência até o fim da vida, como o poeta paulista Roberto Piva, que é uma influência muito forte em ‘Aventuras na Ilha do Tesouro’. Tem alguma coisa no jeito que ele trata a adolescência… Parece que a coisa mais digna do mundo é você metralhar tudo quando está na adolescência. E não estou nem falando de um período de idade, mas, talvez, de uma sensação de imaturidade. O Piva fala de ser um eterno adolescente e eu gosto, porque parece até uma afirmação contra algumas ideias impostas de que você tem que crescer, sabe? Digo, é óbvio que você tem que crescer, mas o pensamento que entra aí seria: crescer pra onde, então? Pra quem? Há um impulso muito forte em crescer, mas não o questionamento sobre o que é crescer ou amadurecer.

pedro-cobiaco-2Mas há alguma diferença na confusão e no sentimentos à flor da pele de um adolescente, em relação a alguém mais velho? Acho que o adolescente é bem consciente dessa imaturidade e, às vezes, até usa isso a seu favor… Ou contra, né?

Sim. Acho que o carisma que eu citei vem, justamente, disso. O adolescente não é idiota, mas nada impede que ele seja idiota, às vezes, tipo quando bota uma banca que sabe de tudo. A adolescência vai passando por esses picos de “caralho, é isso! Por que as pessoas ainda não estão fazendo isso?” e outras de se sentir um burro, um idiota. Durante a adolescência, você começa a ter flashes bem fortes do que podem ser problemas e questionamentos. Pelo menos, pra mim, o começo da adolescência foi quando começou a aflorar o entendimento do que é melancolia. Estou me referindo à melancolia como um baque de ficar perplexo com essa coisa gigante que que é existir, que é a vida… Tudo, sabe? O que é mais carismático no adolescente é que quando ele encara esse quadro monstruoso, complexo e enorme, o que ele faz é chutar a canela da vida, não ficar deitado em posição fetal.

Eu penso muito, muito, mesmo, nessa minha tendência a falar e escrever sobre personagens adolescentes, mas nunca consigo chegar a uma conclusão. É um questionamento que sinto que é bem possível que eu leve pra vida toda. Mas esse não saber também me ajuda a explorar os personagens. Eu não sei por que, mas tem alguma coisa ali que precisa ser explorada.

Neste ano, você publica ‘Aventuras na Ilha do Tesouro’ e seu pai [o quadrinista Fábio Cobiaco] publica ‘Mayo’, também pela Editora Mino. Como é trabalhar em sincronia com ele e como foram os primeiros passos que você deu nos quadrinhos, apoiado nele?

Já faz alguns anos que moro longe dele, mas temos muito contato. Em primeiro lugar, meu pai é minha base e incentivo pra ter começado a fazer quadrinhos, no sentido paterno e artístico. Meu pai sempre teve uma biblioteca enorme de quadrinhos e materiais de desenho. Eu fui criado nesse ambiente, respirava quadrinhos.

Quando comecei a fazer quadrinhos, passei a olhar meu pai como um profissional de quadrinhos. Então, de repente, as perguntas sobre desenho que eu tinha eram técnicas. Eu percebi que eu tinha um profissional de quadrinhos ali do lado e não precisava pagar nada por isso (risos). Eu vivia perguntando qual material usar, como fazer isso, como fazer aquilo. Eu perguntava muito sobre como é trabalhar uma carreira e, também, sobre coisas que transcendiam o desenho. As respostas dele nunca foram técnicas. Era uma vibe meio Obi-Wan e eu ficava: “Nossa, que parada filosófica!”. As coisas que ele me disse foram as que mais me ajudaram.

pedro-cobiaco (2)Neste ano, estamos produzindo nossos quadrinhos e achei bonita essa sincronia, porque a HQ dele também é de aventura. Foi dele que surgiu a minha paixão por HQs de aventura. A sensação de trabalharmos ao mesmo tempo é muito mais de uma luta conjunta, apesar de eu estar milênios atrás dele em capacidade e qualidade. Talvez, seja assim em qualquer profissão que passa de pai pra filho. A sensação é que, mesmo individualmente, os dois estão suando pela mesma coisa e funcionamos como suporte um pro outro.

Tem também essa relação que muitos meninos têm com o pai, de querer imitar os gestos e tal. Você fica pensando quais atitudes pode plagiar pra ser como ele, fica triste por não ter uma barba (risos). De repente, você percebe que está em um outro caminho, mas com um pé no caminho dele, sei lá… A relação que tenho com ele é muito bonita e muito importante pra mim, tanto na vontade de fazer quadrinhos quanto na de não desistir. Cara, meu pai ralou muito por quadrinhos. Sou suspeito pra falar, mas pouca gente no universo ralou tanto por quadrinhos quanto ele. Talvez, nem ele saiba, mas eu vi muita coisa acontecendo e ele ficando firme. Não dá nem pra explicar a inspiração e a força que isso dá.

Há algum tempo, algumas das poucas oportunidades que um brasileiro tinha de fazer quadrinhos e ganhar uns trocados com isso era desenhar pras editoras americanas. Mais recentemente, alguns artistas que cresceram lendo material americano, sonhavam em produzir pro mercado de lá e até tentaram ou conseguiram, como o Fábio Moon e o Gabriel Bá ou o Vitor Cafaggi, descobriram que o Brasil também tem um potencial leitor de quadrinhos. A galera da sua geração, como o Felipe Nunes, o Gustavo Borges e o Diego Sanchez, já está pensando e produzindo diretamente pro mercado brasileiro. Você pensa em publicar no exterior ou lançar por aqui já está de bom tamanho?

pedro-cobiaco (4)Eu trabalho voltado pra cá, sem dúvida. Tenho uma paixão muito grande pela arte brasileira. Tirando um ou outro quadrinista de fora, como o Michael DeForge, todos os artistas que me inspiraram em ‘Aventuras na Ilha do Tesouro’ são daqui. Não sei se é o ar que a gente respira, mas tem alguma coisa por aqui que me interessa muito. É onde eu nasci, pra onde eu trabalho.

Mas eu não diria que publicar só aqui estaria de bom tamanho. Eu tenho muita vontade de publicar fora do Brasil. É engraçado, porque minha vontade de publicar no exterior vem muito mais de uns desejos idiotinhas (risos). É muito mais: “Caralho, imagina se DeForge vê meu quadrinho numa livraria?”, tá ligado? (risos). Ele não precisa nem comprar, só de ver… (risos). Pra mim, o que conta é muito mais o Mazzucchelli passar os olhos na capa dos meus quadrinhos do que a ideia de ser famoso lá fora e tal. Então, é isso. Minha vontade vem mais de um contato com caras que eu admiro e com gente lá de fora. Também tenho bastante interesse de ouvir a crítica de lá, que já é mais tradicional e estabelecida que a daqui, o que é natural, obviamente.

Mas se levar em conta essas brincadeiras de “prefere matar seu irmão ou comer seu cachorro”, eu prefiro não ter nenhuma obra publicada lá fora e publicar sempre aqui do que o contrário. Sei lá, tenho muita vontade e curiosidade de saber como as pessoas de lá vão entender e reagir em relação à minha obra… Principalmente, o Michael DeForge (risos).

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