9 perguntas para Hugo Canuto

Hugo Canuto é um quadrinista baiano, que, atualmente, desenvolve seu trabalho de estreia, ‘A Canção de Mayrube’. Apesar de estar dando os primeiros passos profissionais na nona arte, o artista já tem mais de 1.500 páginas de conteúdo sobre o universo que construiu.

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Durante a 21ª Fest Comix, o quadrinista Flávio Luiz (‘Aú, o Capoeirista’, ‘O Cabra’) [tem entrevista com ele por aqui, na semana que vem!] me apresentou o Hugo Canuto. Bati o olho na arte do cara e viajei. Havia ali uma mistura que, na hora, eu não compreendi, mas pude entender um pouquinho depois dessa entrevista que você confere logo abaixo. Era um misto de ‘O Senhor dos Anéis’ e de povos pré-colombianos, indescritivelmente, sensacionais.

Em 2016, ele pretende lançar o que promete ser apenas o primeiro volume das histórias que tem para contar do universo que criou. Neste ano, no FIQ e na CCXP, ele estará presente com uma prévia de ‘A Canção de Mayrube’. Um conselho: Não percam!

cadernos-hugo-canuto-cancao-mayrube (4)Hugo, ‘A Canção de Mayrube’ será sua primeira HQ? O que te influenciou a criar esse universo?

No início do ano, participei da coletânea ‘Máquina Zero 2’, a ser lançada pelo grupo Quadro a Quadro, do qual faço parte. Mas ‘A Canção de Mayrube será minha estreia nos quadrinhos com um projeto próprio. Sempre gostei de mitologia de todos os tipos: grega, nórdica, celta, e foi indo, indo, crescendo ao longo da vida. Acho que muita gente que lê quadrinhos flerta com mitologia, né? Ela é base de quase todas as nossas histórias e imaginação. Quando comecei a ler HQs, aos 9 anos de idade, me interessava mais por Thor, Hércules, Novos Deuses… sempre surfei nessa onda. E Jack Kirby… Pô, o cara era um produtor de mitos! Ele foi o maior produtor de mitos modernos. A estética dele, a maneira como bebia das referências… Isso tudo me influenciou muito e fui absorvendo. Depois, vieram livros de fantasia, como ‘O Senhor dos Anéis, que acho é a maior referência para quem gosta de literatura fantástica.

Naquela época, em 1999, o mercado brasileiro para esse gênero não era como é hoje. Você encontrava edições dos anos 80, de uma editora portuguesa, no canto de uma livraria… Era uma época terrível para sonhar qualquer coisa nessa área. Eu não sei aqui em São Paulo, mas na Bahia, era muito difícil achar alguém que gostasse. Eu sinto que, para minha geração, a partir de ‘Harry Potter’, um público começou a se formar. ‘A Ilíada’, ‘Gilgamesh’, ‘Viva o Povo Brasileiro’, os livros do Jorge Luís Borges, e do Neil Gaiman foram outras obras me que fizeram querer escrever. Sempre desenhei, então juntei a vontade de desenhar com a escrita.

Mas quando e por que você começou a desenvolver os conceitos de ‘A Canção de Mayrube’?

Em 2007, vivi uma experiência que mexeu muito comigo. Ainda na faculdade, fomos fazer um trabalho na aldeia indígena de Mirandela, território do povo Kiriri, no sertão da Bahia. Este lugar foi disputado por séculos. Bom, passamos uma semana convivendo com eles, vimos as cerimônias e seus costumes. Quando voltei a Salvador, meu avô, um sertanejo de 96 anos, me disse que o lugar que visitei era a terra onde ele havia nascido. Aí, fiquei encantado, com isso na cabeça, sabe? Como, do nada, sem saber de nada, descobri uma raiz dessa? A partir daquilo, comecei a pensar em estudar a cultura dos primeiros povos, das tribos brasileiras. Esse foi um processo meio inconsciente e fui estudando, conforme me interessava.

Ia estudando e produzindo, mas esbarrava em algumas coisas. Era mais fácil ir numa livraria e encontrar uma seção só de mitologia grega, dos deuses nórdicos, do que, por exemplo, mitologia Inca ou Huorani [indígenas da região amazônica do Equador]. Comecei a usar o tempo livre para criar mapas, geografia completa, os povos… Mas, no início era uma coisa meio assim, como diz um amigo, Frodo Skywalker. É inevitável usar muito do que você leu e conhece, no começo.

Em 2011, no fim da faculdade, tive a oportunidade de morar na Espanha. Botei meu projeto debaixo do braço, mesmo que não soubesse muito bem o que era, e lá tomei um susto, porque tive acesso a um material de estudo que não havia aqui, no Brasil. Aquelas experiências abriram minha cabeça. Então, surgiu ‘A Canção de Mayrube’ e a ideia de construir uma trama inspirada nas civilizações que formaram a América.

É preciso dizer que, mais do que pensar no projeto, você rascunhou toda a história e geografia do mundo.

Cara, em 2014, eu já tinha mais de 1500 páginas sobre A Canção de Mayrube, cadernos completamente preenchidos com ideias e artes. Depois de tanto tempo pesquisando, precisava colocar tudo pra fora, de qualquer maneira. Precisava me dar a oportunidade de realizar esse projeto, de canalizar todas essas ideias para uma História em Quadrinhos.

Alguns amigos roteiristas recomendaram que eu tentasse organizar os escritos e imagens para que pudessem entender o projeto. Assim, surgiu ‘O Guia da Canção de Mayrube’, que tem mais de 200 páginas (risos). Mas ficou mais fácil, realmente. Consigo consultar com mais facilidade quais os reinos, as armas e ritos, religiões, mapas…

Apesar de ser uma história ficcional de fantasia, tem muita referência que você absorveu dos seus estudos?

Sinto que o trabalho está em costurar as pesquisas que faço de determinadas civilizações e suas lendas, para formar as minhas. O Tolkien tem uma analogia que acho fantástica, mais ou menos assim: “Um fazendeiro inglês descobre uma antiga ruína em sua propriedade e usa as pedras para construir uma torre. Embora os filhos fiquem zangados com ele por ter destruído a ruína, se tivessem subido ao alto da torre, perceberiam que, daquela nova perspectiva, agora eram capazes de enxergar o mar”. Admiro muito essa ideia e tento incorporar ao meu trabalho.

  • Confira uma galeria com um pouco do conteúdo dos cadernos do Hugo:

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Teaser de 'A Canção de Mayrube'

Teaser de ‘A Canção de Mayrube’

E como você pretende viabilizar essa HQ?

Felizmente, hoje existem várias formas. Pretendo tentar o Catarse para conseguir publicar com a qualidade que o leitor merece, em formato próximo do europeu. Também sonho com uma editora, seja no Brasil ou fora, o que for possível, mas tenho os pés no chão. É preciso antes de tudo criar um público e mostrar para esse público do que sou capaz, além de sentir a reação das pessoas. Geralmente, a fantasia está associada a elfos, a dragões e ao imaginário medieval. Estou tentando uma coisa diferente. Isso não quer dizer que sou original ou inventei a roda, mas é um caminho que segui sem ter como olhar para o lado.

Quando vim morar em São Paulo, ficou mais fácil descobrir o caminho das pedras. Uma coisa que tenho feito é buscar entender o que é o mercado brasileiro, como funciona e quais são as principais dificuldades. É preciso planejamento, organização, estipular metas para que tudo dê certo.

Então, você está criando uma história que terá continuidade, certo?

Estou criando uma série. Tenho muita coisa preparada. Já escrevi quase trezentas páginas de um livro e tenho outros quatro ou cinco argumentos já prontos. Meu processo é mais lento, porque trabalho muito em cima de pesquisa, livros de antropologia, e até arqueologia.

Teaser de 'A Canção de Mayrube'

Teaser de ‘A Canção de Mayrube’

Percebo que tornar ‘A Canção de Mayrube’ uma realidade é um desafio meio pessoal. Você consegue mensurar o quanto precisa ver isso pronto?

Preciso muito, muito… Às vezes, nem eu mesmo botava fé que iria conseguir transformar esse projeto em realidade. Tudo começou como um exercício de imaginação para curar um momento crítico e, quando me dei conta, tinha tanta coisa na mão, que trazer à tona era uma necessidade. Dando tudo certo, acho que tenho material para produzir por uns dez anos (risos).

Por que você decidiu fazer colorir todas as páginas da HQ à mão?

É preciso suspender a descrença do leitor, para que ele sinta a textura da história. Quadrinho é algo trabalhoso, mas quadrinho de fantasia é ainda mais, porque você precisa brincar com os sentidos. O Shiko, com ‘Piteco – Ingá’, me inspirou muito. Comecei a entender que era por ali que queria seguir.

E como está a produção do quadrinho?

Já tenho roteiro, lápis e arte final prontas. Falta apenas terminar de pintar e esse é um processo que leva mais tempo. Será uma graphic novel com 64 páginas de história e 16 páginas de extras. Acho importante aproveitar para mostrar parte do processo de construção do projeto. Tem muita gente com vontade de desenvolver suas próprias tramas, mas acha que não é possível. Acredito que mostrar esse meu processo ajude outras pessoas.

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