Direto do FIQ #1

Este é o primeiro compilado de pequenas entrevistas que fiz no Festival Internacional dos Quadrinhos, o FIQ, que rolou em Belo Horizonte entre os dias 11 e 15 de novembro. Esse post tem entrevistas com Pedro Cobiaco, Diego Sanchez, Marcelo D’Salete, Luciano Salles e Camilo Solano. Confere aí!

Banner do FIQ 2015, feito pela Lu Cafaggi

Banner do FIQ 2015, feito pela Lu Cafaggi

Faz três semanas que o FIQ já acabou, mas só agora tive o tempo e a tranquilidade necessários para publicar essas curtas entrevistas com a qualidade que elas merecem. Sem mais delongas, confira aí o que rolou:

Pedro Cobiaco

(‘Harmatã’, ‘Aventuras na Ilha do Tesouro’)

Pedro Cobiaco e seu 'Aventuras na Ilha do Tesouro', publicado pela Editora Mino

Pedro Cobiaco e seu ‘Aventuras na Ilha do Tesouro’, publicado pela Editora Mino

Qual é a sensação de ver ‘Aventuras na Ilha do Tesouro’ finalmente finalizado e impresso?

É foda, cara. Parece que só agora que vi a história no papel é que eu consegui tirar o peso. O processo de produção durou sete, oito meses e essa parada meio que virou a minha vida. Todos os dias, todas as horas, por meses, eu me debrucei sobre isso. Por mais que eu ache muito importante a HQ estar disponível online, eu só senti um alívio quando as caixas com o quadrinhos chegaram. É como se todo o processo se concretizasse.

Você falou bastante sobre os perrengues e a correria para conseguir entregar esse quadrinho no prazo e com qualidade bacana. Dá para sentir se isso já te fez subir um degrau como artista?

Acho que sim. Só o fato de ter conseguido terminar uma história longa, uma coisa que eu nunca tinha feito, já fez grande diferença. Por outro lado, fiz metade desse livro na correria. Eu poderia ter evoluído mais com ele se eu não tivesse trabalhado cinco páginas por dia, mas uma só e ter podido destrinchá-la e explorar cada possibilidade dela. Mas acho que esse correria foi um aprendizado também… Pode parecer uma romantização, mas esse livro é muito catártico para mim e acho que foi bom ele ter saído numa porrada, porque talvez eu não conseguisse trabalhar tanto tempo nele. Desenvolver essa história foi um processo mental bem pesado.

Diego Sanchez

(‘Perpetuum Mobile’, ‘Hermínia’)

Diego Sanchez2

Diego Sanchez com seu ‘Perpetuum Mobile’, publicado de maneira independente e republicado pela Editora Mino

Seus livros anteriores, ‘Pigmaleão’ e ‘Perpetuum Mobile’, saíram em formatos menores. Já ‘Hermínia’, sua nova HQ, tem formato bem maior e mais quadros por página. Como foi explorar esse novo modelo?

É curioso porque, às vezes, eu desenho em formato A4, mas preferia que os livros saíssem menores. Eu ainda gosto muito do formato pequeno e pela impressão intimista que ele me dá. Eu até comecei a produzir ‘Hermínia’ pensando no formato menor, mas depois mudamos e decidimos testar um tamanho maior. Foi legal, mas acho que não explorei tão bem quanto eu gostaria, porque eu não pensei desde o começo.

Em ‘Perpetuum Mobile’, eu produzi em diversos formatos: umas folhas grandes, outras pequenas, alguns pedaços de folha… Eu não tenho muito método também. Para mim, o mais legal foi poder aloprar, encher de hachuras, criar contradições mais cheias, páginas com quase o dobro de quadros dos meus trabalhos anteriores. É uma forma diferente de pensar a diagramação, foi um desafio.

Esses seus três primeiros livros são conectados, seja por estarem no mesmo universo, terem os mesmos personagens ou por tratarem de temas semelhantes. Seus próximos projetos irão seguir essa linha?

Pretendo trabalhar um universo parecido, mas com temáticas diferentes. Estou tocando dois projetos, atualmente. Um deles é uma história que eu fiz para o Circuito Ambrosia, mas acabou não rolando. O livro contaria três história. Agora, estou desmembrando essas histórias e quero fazer três livros.

O outro projeto que tenho é fazer uma porrada de zines, muitos mesmo. Lancei dois aqui no FIQ (‘Asphodelos’, ‘Privé’) que são mais coletâneas de coisas que eu já tinha prontas. A ideia agora é fazer historinhas de quinze ou vinte páginas.

Mesmo tendo republicado ‘Perpetuum Mobile’ e lançado ‘Hermínia’ pela Editora Mino, você continua fiel aos fanzines. Por quê?

Acho que livros e fanzines têm linguagens bem diferentes. Eu gosto dessa liberdade de poder fazer história de vários tamanhos e tipos. E zine é um negócio meio de teste, que permite alguns tipos de experimentação. O livro passa uma impressão de ser definitivo, sabe? No zine, você pode errar muito mais, pode fazer uma história em uma semana, pode fazer dobras diferentes, fazer com acetato, sei lá… É muito mais simples que fazer um livro. Eu gosto dessa coisa meio efêmera, de ter uma ideia, ver que ela não segura um livro, e colocar ali num zine. Não dá para perder um ano fazendo um livro que você não tem certeza se vai ficar bom. O que me interessa é poder fazer minha pesquisa e meus experimentos sem ninguém me incomodar porque eu não revisei, sabe? Ninguém revisa um zine. Tem um lance de desapego também.

Marcelo D’Salete

(‘Encruzilhada’, ‘Cumbe’)

Marcelo D'Salete autografou suas obras no festival

Marcelo D’Salete autografou suas obras no festival

Cada vez mais, vemos autores que colocam como protagonistas alguns tipos de personagens marginalizados na literatura, como você faz com os negros em suas obras, como o Flávio Soares faz ao retratar o filho com síndrome de Down na obra dele ou como as meninas feministas que estão fazendo um barulho bastante positivo. Qual é a importância dessa movimentação?

Acho de extrema importância ter autores que sejam de outros grupos, não somente daqueles que estão estabelecidos no poder. É essencial que esses autores contem histórias de suas perspectivas e pontos de vistas. Acho que seria muito salutar vermos a história do Brasil pela ótica feminina ou pela ótica indígena, por exemplo. Isso enriqueceria muito a maneira como entendemos nossa história e a situação atual.

Você acha que isso também pode contribuir para a formação de um novo público?

Ter autores que fazem parte de grupos marginalizados – negros, mulheres, mulheres negras, indígenas – pode ajudar a oxigenar o mercado e universo dos quadrinhos por enfocar novos temas e perspectivas. Isso pode abrir o leque e fazer com que um novo público se interesse por quadrinhos. Talvez, muitas das mulheres que estão aqui no FIQ vieram interessadas em procurar mulheres quadrinistas que contem histórias da perspectiva da mulher. Do pouco que conheço de quadrinhos produzidos por mulheres, vejo que elas contam histórias com uma perspectiva que, dificilmente, um homem seria capaz de contar. A arte dá a possibilidade de, mesmo eu sendo negro, poder fazer uma história com personagens brancos. Mas não podemos querer que só um grupo conte histórias sobre outro grupo. É essencial ter uma diversidade de perspectivas.

Luciano Salles

(‘L’amour: 12 oz.’, ‘Limiar: Dark Matter’)

Você sempre fala sobre como seus três primeiros livros (‘O Quarto Vivente’, ‘L’amour: 12 oz.’, ‘Limiar: Dark Matter’) são todos parte de um ciclo. Como foi ter colocado um ponto final nesse ciclo?

Quando eu terminei ‘Limiar: Dark Matter’ e peguei a revista pronta na mão, senti uma liberdade criativa absurda. Em vez de, sei lá, me travar, ter terminado esse arco me libertou em vários sentidos: questões narrativas, gráficas, de pensamento. Enfim, estou me sentindo realmente livre. Mas é importante dizer que eu nunca tratei esses livros como uma trilogia. Os temas se conversam, mas as revistas são independentes.

Essa liberdade já permitiu que você pensasse em sua próxima história?

Eu tive milhões de ideias desde que eu terminei ‘Limiar: Dark Matter’… Milhões, não, mas umas quatro, pelo menos (risos). Na verdade, já tenho até formulado o que vou fazer para publicar em 2016. Pronto, falei. Ainda estou montando na minha cabeça, mas já tenho tudo mais ou menos delineado. Vai ser uma coisa bem diferente das três revistas que eu fiz.

Mesmo tendo lançado ‘L’amour: 12 oz’ no ano passado, você optou por lançar esse novo trabalho de maneira independente. Por quê?

É que eu tenho algumas encanações, sabe? Como eu comecei publicando independente, com ‘O Quarto Vivente’, eu precisava terminar esse arco de maneira independente. Eu avisei o pessoal da Mino que eu já tinha esse plano e eles entenderam. Não teve briga, nenhum desentendimento. Eu apenas quis lançar de maneira independente, até porque gosto de carregar os livros, planejar a distribuição, dessa correria toda. E tem espaço pra todo mundo! Quer lançar por uma editora? Vai. Quer fazer independente? Faz. É uma coisa que depende muito do autor, também. Apesar de não parecer, por baixo dessa casca, eu sou um cara muito punk com a produção. Eu gosto de ter o controle sobre tudo. Foi excelente publicar ‘L’amour: 12 oz.’ pela Editora Mino e, provavelmente, no futuro vou lançar alguma coisa com eles. Não fechamos nenhuma porta, tanto eu quanto eles. Muito pelo contrário.

Camilo Solano e Luciano Salles dividiram mesa no festival

Camilo Solano e Luciano Salles dividiram mesa no festival

Camilo Solano

(‘Captar’, ‘Desengano’)

Na Fest Comix, antes do lançamento de ‘Desengano’, você me falou um pouco sobre o desafio de fazer uma história não autobiográfica pela primeira vez. Já com o livro em mãos, como foi a experiência?

Cara, foi legal, foi bem diferente. A principal diferença durante a produção é que eu, como autor, me senti mais ousado e deu pra arriscar mais. O processo mesmo foi bem parecido com as HQs anteriores, porque, querendo ou não, tem algo de biográfico ali.

Há dois anos, em 2013, você veio como artista ao seu primeiro FIQ. O que mudou de lá para cá?

Minha carreira como quadrinista começou aqui no FIQ de 2013, quando eu não era ninguém. Eu vendi quase tudo que trouxe naquele ano. O festival meio que abriu meus olhos e eu vi que era possível, sabe? Agora, voltar e reencontrar muita gente que me conheceu lá e quer saber o que tem de novo, não tem preço. É muito legal, mesmo.

Você disse que se sentia um ninguém em 2013. Neste ano, dá para notar uma diferença no reconhecimento do público?

Tenho sido bastante reconhecido e isso é muito, muito gratificante. É claro que está acontecendo por causa do meu trabalho, mas também acho que grande parte da culpa dessa evolução de artistas e público é dessa galera que tem blog, que produz vídeo, que resenha HQs e entrevista os quadrinistas. Acho que é um trabalho meio comunitário também. Fazer quadrinhos é uma coisa muito solitária, mas, nesses momentos, a gente percebe que é muito unido. Jornalistas, autores e público estão todos comungando dessa festa.

 

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